sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Daqui a alguns minutos, após a meia noite faz já 3 semanas que Deus chamou o meu anjo.

Mãe
Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade. 
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital. 
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta 
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos. 
Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho 
Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste, 
Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical, 
sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento 
a que se chama Deus.
Que existe porque tu o amas, 
tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade. 
E assim estás no meio do amor como o centro da rosa. 
Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente. 
Com o teu amor humano e divino 
quero fundir o diamante do fogo universal. 
 

António Ramos Rosa, in 'Antologia Poética'

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Para Sempre

Por que Deus permite 
que as mães vão-se embora? 
Mãe não tem limite, 
é tempo sem hora, 
luz que não apaga 
quando sopra o vento 
e chuva desaba, 
veludo escondido 
na pele enrugada, 
água pura, ar puro, 
puro pensamento. 
Morrer acontece 
com o que é breve e passa 
sem deixar vestígio. 
Mãe, na sua graça, 
é eternidade. 
Por que Deus se lembra 
— mistério profundo — 
de tirá-la um dia? 
Fosse eu Rei do Mundo, 
baixava uma lei: 
Mãe não morre nunca, 
mãe ficará sempre 
junto de seu filho 
e ele, velho embora, 
será pequenino 
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Acabou de fazer à minutos uma semana que Deus chamou o meu Anjo...

(Algumas das suas últimas fotografias tiradas por mim durante alguns dos muitos passeios que sempre dávamos)
 
Acabou de fazer à minutos uma semana que Deus chamou o meu Anjo para junto Dele. Mãe, as saudades aumentam a cada momento que passo sem ti, tudo está tal e qual como deixas-te. Dói muito, mas peço a Deus que te tenha junto a Ele, com teus pais, teus irmãos e avós que tanto amavas. Senhor meu PAI, guarda e guia este anjo que me deste, e não a deixes ficar agarrada a este mundo terreno por nada, nem pelos filhos, netos e sobrinhos.
Obrigado meu DEUS.

Álvaro Gonçalves Correia de Lemos

sábado, 13 de janeiro de 2018

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
 
(Publico este poema de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, não só porque gosto de Pessoa, mas porque este poema me retrata em muito, ou mesmo na perfeição)


 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Podem podar meu...

Podem podar meu caule, minhas folhas, frutos e flores; mas não podem arrancar minha raiz!
 
Carolina Salcides

…mas tem horas em que a gente...

…mas tem horas em que a gente só quer alguém que nos abrace, que nos dê carinho, alguém que se importe, alguém que nos ame.
 
Tati Bernardi

Tenho que ter paciência...

Tenho que ter paciência para não me perder dentro de mim: vivo me perdendo de vista. Preciso de paciência porque sou vários caminhos, inclusive o fatal beco-sem-saída.
 
Clarice Lispector

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Não sei o que se passa ao certo,...


Não sei o que se passa ao certo, só sei que algo se passa, Dentro de mim jorra uma profunda agonia, uma tristeza sem fim, E ao mesmo tempo uma vontade enorme de ser feliz, São sentimentos contraditórios estes os meus. Sinto-me quase sem vida, mas em mim ainda jorra uma esperança de paz, de amor, de vida. Porquê estes sentimentos tão antagónicos, e como podem eles viver, habitar ao mesmo tempo o mesmo ser - eu? Que fiz eu para viver esta tortura tão horrível, será que durante meu caminhar virei e continuei virando para o lado errado? Será que tentar cuidar de seres que de mim precisam e que mais ninguém têm, me faz assim ficar? Será que me esqueci de mim? Talvez, mas onde estou eu no meio a este emaranhado? O ar falta-me, as agonias aumentam, o coração acelera mas descompassado, a mente diz uma coisa, mas outra metade de mim fala outra, estarei eu enlouquecendo? A morte já a desejei tantas vezes, que perdi a conta, mas acho que nem depois de morrer este coração ou mente irão parar, tudo porque estou ainda muito apegado à vida com esperança e por vezes sem ela. Já vivi tanto, mas perdido fiquei por essa vida, cometi erros, muitos mesmo, mas não me arrependo, paguei por eles e sigo pagando por cada um, se me perguntarem o que mudaria na minha vida, não, não mudaria nada, fiz tudo da minha maneira, da forma que sabia e sigo fazendo o mesmo, seja bom ou mal, mas quem pode dizer que esta é a pior maneira e aquela a melhor?, se não viveu e não calçou meus sapatos? Por vezes acho engraçado, por outras de péssimo gosto me dizerem, tem paciência Álvaro, quando não calçaram os meus sapatos, não sabem os trambolhões que dei para aqui chegar, ou as gargalhadas que dei, as quedas e as vezes sem conta que me levantei, mas têm a a lata de me dizer tens de ter paciência meu amigo, ora essa e eu?, onde fico eu?, onde estou eu?, com 50 anos deixei tudo, perdendo a vida ou não, tomei essa opção, sim foi tomada por mim, mas não venham com: tem paciência amigo. Estou cansado de ter paciência de viver em função da vida dos outros, já nem sei mesmo o que é viver e muito menos amar, vivo feito um robô mecanizado fazendo de tudo e mesmo assim, nada chega para ninguém, por vezes sinto-me o último lixo num grande contentor. Choro, e torno a chorar, e quantas vezes ás escondidas porque quem de mim precisa não precisa de mais tristezas, até de meus amigos omito um montão de coisas, não quero que tenham pena de mim, não sou ave para ter penas, sou um ser humano meio simples meio complicado, coberto de amarguras, tanta coisa omiti eu ao longo destes anos para que ninguém se preocupasse comigo, pois já tinham tanto em que pensar, hoje, meu ser não suporta nem mais um pouco de nada, talvez amanhã, ou depois de amanhã, sim, quem sabe amanhã ou depois de amanhã. Detesto falar de mim, mas quando não encontro outra forma de falar eu escrevo, é uma forma de falar à qual me habituei, sendo de poucas palavras e meus olhos dizendo demais, oculto-os com os mais diversos óculos escuros mesmo quando chove, porque me denunciam, e não gosto de ser traído pelo meu próprio ser, por isso escrevo quando a vontade é grande, quando não suporto nem mais um milímetro de tanta coisa. Enfim, não sei se isto é viver, já nada sei de nada… apenas sigo... até cair um dia.


Álvaro Gonçalves Correia de Lemos

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A minha intensidade...

A minha intensidade não é uma escolha, não é qualidade nem defeito, é uma característica. A minha intensidade não pode ser detida, mas canalizada. Eu posso amar com a profundeza do absurdo sem sufocar o Outro. Eu posso rejeitar com todo o meu ser sem ferir. Eu posso estar totalmente junto sem tentar controlar, me apropriar, invadir. Eu posso exercer a minha intensidade de maneira assertiva quando identifico que ela é apenas minha maneira de sentir. Ela pode assustar, ela pode atrair, mas tenho o cuidado de me deixar esparramar e ser penetrado com delicadeza. Pois a minha intensidade pode ter ardência com leveza. Eu não preciso negligenciá-la se ela respeita espaços que não são meus. Eu não preciso tentar abafa-la se a uso para criar belezas ou entrar em contato com o que quer que seja. A minha intensidade quando é um problema meu, vira solução. Então assumo as consequências de cada pulsação intensa do meu coração.
 
Marla de Queiroz

sábado, 25 de novembro de 2017

Quem sou eu?

Quem sou eu? A alegria de quem me ama, a tristeza de quem me odeia e a ocupação de quem me inveja!
 
Autor Desconhecido
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